domingo, 3 de junho de 2012

Albert Nobbs, 2011



Quando não se pode ser você mesmo.

Na Irlanda, do século XIX,assim como em outros países, as mulheres não podiam ocupar determinadas profissões, o preconceito tão presente nesse século e não muito distante do século XXI, nos conta a história de uma mulher, que para sobreviver precisou caracterizar-se como homem, nos convida a refletir como a sociedade sempre foi e será, apesar das suas grandes descobertas tecnológicas em todas as áreas do conhecimento, preconceituosa e que não mede esforços para aniquilar aqueles que não “vivem” segundo a sua organização, chanceladas como correta e verdadeira.

Glenn Rose, protagonista principal do filme é Albert Nobbs, um mordomo introvertido que traz consigo um grande sonho, ter seu próprio negócio, adquirir sua liberdade, e quem sabe poder ser ele/ela mesmo. Para isso tudo que ganha guarda secretamente no assoalho do seu quarto.

Filha de uma prostituta, ela quando bebê é entregue a um convento, porém assim que sua mãe morre, Albert é colocado para fora, sendo entregue as mais tórridas situações que uma jovem esta sujeita nas ruas das grandes cidades.

Molestada, espancada, por diversas vezes, a solução encontrada é negar sua aparência frágil de mulher e navegar no universo masculino.

Albert, assim conhecido vai trabalhar num hotel chique da cidade, recebendo elogios de todos os freqüentadores do ambiente, em função da sua seriedade e profissionalismo. Com todos esses adjetivos, ele também ganha a confiança da Dona do Hotel e dos demais empregados da casa, porém sem nunca revelar sua verdadeira natureza.

Na eminência de ter seu segredo revelado, após a chegada repentina de Hubert Page (Janet McTeer), um pintor contratado para reformas no Hotel e com o qual será obrigado a dividir o mesmo quarto e cama, seu dilema e sofrimento ganha uma tonalidade mais forte.
Num momento de distração, Albert é descoberto por Hubert Page, e implora que não conte aos demais, pois seria escorraçada.

Vendo o sofrimento da pobre, Hubert revela que não é necessária a temeridade, pois era também mulher na roupa de homem, e que era casada com outra mulher, porém o anonimato era necessário, uma vez que a sociedade como dita anteriormente era totalmente preconceituosa.

A revelação de Hubert renasce em Albert a possibilidade de também ter uma família, de se apaixonar e viver como ele (a) mesmo diz com “a esposa”.
Neste contexto turbulento Albert corteja Helen Dawes (Mia Wasikowska), empregada do hotel, mas que esta apaixonada por Joe Mackins (Aaron Johnson),um jovem inescrupuloso que de forma maquiavélica induz a sua amada a enganar Albert, arrancando tudo que fora preciso, para que juntos pudessem ir para os Estados Unidos.

Albert sonha em casar-se com Helen, a ponto de visitar Hubert Page e sua esposa Cathleen (Bronagh Gallagher), para ter certeza de que era possível a sua realização, que não se tratava de apenas mais um conto platônico de amor.

Ao revelar seu desejo à jovem Helen, esta o rejeita, até porque estava grávida de Joe e acreditava na intenção do jovem levá-la junto consigo aos EUA.

A febre tifóide assola o país, e esse episódio, faz com que o hotel passe por crises financeiras, pois os hospedes com medo da proliferação da doença evacuam o prédio.

Albert é vitimizado pela doença, porém consegue sobreviver, sorte essa que não teve a bela esposa de Hubert Page, assim como boa parcela daquela sociedade.

Num misto de desespero, ele procura por Hubert propondo-lhe uma parceria, de maneira que a solidão não fizesse parte de suas vidas.
Hubert busca homenagear a esposa morta e junto com Albert vestem os vestidos confeccionados por ela.

Num certo momento ao ar livre da praia, Albert por segundo sente a alegria de ser ele/ela mesmo.

Mas a sua “natureza”, já não mais se via num vestido, era homem de alma e assim desejava ser.

Orientada por Hubert a prosseguir e investir nos seus sonhos, Albert continua, mas sem sucesso pedir novamente a jovem Helen em casamento, prometendo cuidar dela e da criança esperada.

Fato esse que não se concretizou, pois numa noite fria, Joe entra no quarto de Helen e diz que não quer ter a mesma vida que o pai, que no passado havia abusado dele e de forma agressiva e alcoolizado tenta agredir Helen.

Diante desta cena Albert sai em defesa de Helen, mas é jogado contra a parede por Joe, causando um sério ferimento na cabeça.

Cambaleando, sem forças, ele vai para o seu quarto e deita-se. Nos seus sonhos imagina-se casado com a bela Helen, porém esse sonho jamais se concretizaria, pois a violência sofrida na noite anterior o leva a óbito.

Numa atitude de insensibilidade a Dona do hotel, logo após o enterro de Albert, descobre entre seus pertences uma caderneta, onde era registrado todo o dinheiro guardado por anos por Albert.

Inescrupulosa, Sra. Baker (Pauline Collins) utiliza a fortuna descoberta para reformar o seu Hotel, e sem nenhum pudor menospreza aquele (a) que lhe servira com profissionalismo e fidelidade.

Os preconceitos existentes na nossa sociedade não são somente dirigidos as pessoas com orientações sexuais ditas anormais, isso todos sabem, porém o que nos faz refletir é pensar que os tempos passam, os séculos terminam, mas a maldade humana cresce na mesma proporção que suas descobertas.

Quantos (as) Albert são assassinados (as) diariamente, sem que as autoridades tomem medidas sérias  para coibir tamanha violência.
Aqui é importante lembrar que se há um índice enorme de prostituição no meio homossexual é fruto do preconceito em dar um trabalho digno aos mesmos.
Educar uma sociedade para o pluralismo de idéias, respeito às diversas manifestações religiosas, as orientações sexuais, ao pluralismo cultural e regional e caminhar para uma sociedade mais justa e igualitária.

Calar-se diante destas atrocidades é corroborar com uma situação de injustiça, muitas vezes alimentadas por líderes religiosos e um percentual significativo da sociedade arcaica que utilizam o nome de Deus para disseminar a vontade seus preconceitos, carregando consigo uma grande massa de ignorantes.
Não digo que as pessoas são obrigadas a aceitarem umas as outras, seja por qual motivo for, porém o respeito deve ser à base de uma sociedade e se não conseguirmos garantir isso caminhamos para a destruição da humanidade.

É uma pena que poucos possam ter a oportunidade de assistir um filme como esse e discutir a forma organizativa da sociedade que ainda trata a pessoa humana de acordo com a sua cor, raça, credo, sexualidade, entre outros.

Promover a vida, a igualdade social e pessoal deveria ser a nossa luta diária.
Se for utópico ou não, eu creio que este dia chegará.

Professor Flavio Costa













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