quarta-feira, 12 de junho de 2013

Minha Mãe Ancestral (Matéria minha destinada a revista Orixás - 2009)

Meu amigo, e irmão André de Odé, concedeu-me licença para que eu postasse esse texto.
Ele se faz necessário para que entendamos a Antropologia Religiosa Africana e assim possamos aprender mais sobre as nossas ancestralidades.
Espero que gostem.


 Minha mãe Ancestral.


               (Iya Mi Osoronga)


Donas do poder feminino, podendo ser comparado ao poder de qualquer orixá, as Iyá Mi Eleye Osoronga tiveram seu culto difundido por sociedades secretas na África como as sociedades de Gueledé, sendo grandiosos festivais realizados na Nigéria em homenagem as grandes mulheres da sociedade, nestes festivais homens se vestem de mulher e usam mascaras femininas, mas apenas para ridicularizar o homem perante o poder feminino, o poder da criação. Estas comemorações são realizadas entre março e maio, coincidindo com o início das chuvas do país, co-relacionando o culto as Iya Mi Eleye à fertilidade.
Quando Iya Mi chegou a Terra pela primeira vez, pousaram em sete árvores, três delas eram providas de poderes apenas maléficos e três delas poderes benéficos, apenas uma entre as sete ponderava e praticava o mau e o bem. Esta sétima Iya Mi Eleye pousou sobre uma jaqueira. Onde é comumente assentada em terreiros de candomblé. Iya Mi Osorongá está quase sempre encolerizada, quando os homens falam seu nome, seja positivamente ou negativamente, já é motivo para encolerizá-la. Ya Mí, para justificar a sua cólera constante impõe interdições e, propositadamente, não as dá a conhecer a ninguém. Assim, as pessoas por ignorarem os seus tabus desobedecem às suas proibições e são severamente punidas. Entretanto, mesmo que as interdições não sejam violadas, as Yamí sentem-se no direito de castigar a quem bem lhes aprouver.
Os pássaros que voam a noite são seus símbolos, a coruja por excelência. Seus assentamentos são enterrados nos pés de frondosas árvores como a jaqueira, justificando seu ventre ancestral, grandes cabaças penduradas em uma árvore faz conotação ao ritual de Iya Mi, requer então atenção  para lidar naquele espaço.
Todas as mulheres são Ajés enquanto menstruam, são as Iyas quem controlam o ciclo menstrual de todas as mulheres, são as responsáveis por interrupções no ciclo menstrual ou hemorragias, tendo assim em mãos o poder de propiciar ou não a possibilidade da fecundação, a palavra Ajé neste caso não pode ser lida de forma negativa, e sim ao contrário, pois é uma dádiva de Iya Mi Osoronga o poder de uma mulher fecundar um filho, assim como dá  ou não à jaqueira o poder ou não de gerar frutos. Este Ajé feminino é o intérdito principal que impossibilita que uma mulher alcance o grau mais alto do culto a Ifá, ou seja, não existe e nunca irá existir mulher com cargo sacerdotal no culto à Ifá, ou seja, mulher não joga Opele Ifa e sim o Merindinlogun (jogo de Búzios). Isto se deve ao fato de que o culto a Ifá é regido por Orunmila, e deste ponto caberia mais uma dissertação sobre o assunto Orunmila x Iya Mi.
O uso de pano da costa ou pano de cintura é exclusivo das mulheres pelo fato de ser um modo da mulher proteger seu ventre/útero do poder negativo advindo de outras fontes de poder ou da própria Iya Mi durante o culto aos Orixás, hoje vemos inúmeros homens utilizando pano de cintura, pano da costa, sem motivo algum, apenas por luxo ou porque achou bonitinho. Pura ignorância no assunto, é deixar fluir pelos dedos a essência do candomblé. O pano da costa (alaka), é utilizado caindo a partir dos seios quando a mulher esta apta a amamentar, após esta fase, a qual indica que esta mulher é uma anciã no culto, passa-se a utilizar o pano abaixo dos seios. Aqui também se aplica a regra absoluta que rege o culto as Iya Mi Osoronga: Apenas mulheres podem cultua-la! Assim como no culto aos Eegun, que apenas homens podem lidar com o âmago do culto, no ritual de Iya Mi é de exclusividade ritualística feminina, sendo ridículo ouvir dizer ou afirmar que homens podem se fantasiar de mulher para enganar as Grandes Mães, ora, tamanha ignorância seria se elas acreditassem, não acham?
Por fim, creio que devemos respeitá-las e admira-las, Iya Mi é a origem ancestral  feminina, é a responsável pelo segredo da criação, Oxum, Iyemanja, Nana, Oya e outras divindades maternais, são integrantes do culto à Iya Mi Osoronga, deixando evidente a nós, rales mortais o poder de nossas Mães Ancestrais. Mojuba.

André de Odé 

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