Essa semana foi muito agitada nos
meios jornalísticos, políticos, em todos os meios de comunicação e
principalmente na sociedade como um todo. A causa dessa turbulência foi à
entrevista concedida pela apresentadora Xuxa Meneguel, ao Programa Fantástico
da Rede Globo de televisão.
Alguns críticos, outros oportunistas
julgaram a entrevista como um show de sensacionalismo, ou autopromoção, coisas
que não já não é mais preciso para a apresentadora citada.
Abrir a sua vida, principalmente a
sua intimidade não é fácil, você precisa ter muita coragem e estar muito bem
psicologicamente para expulsar um misto de raiva, ódio, rancor e dor que ainda
é latente dentro de você. É uma necessidade de expor-se impressionante, como se
essa atitude tivesse uma ação medicamentosa.
Claro, que se falando de Xuxa, a
Rainha dos Baixinhos, o seu drama se torna algo muito forte e às vezes até
chocante para a população, pois quem imaginaria que a atriz/apresentadora
sofresse desse conflito interior, ou tivesse passado por esse drama na sua vida
pessoal.
Ao assistir a sua entrevista, ao
perceber seus olhos, o gesticular da sua boca, e as diversas feições que ela
mostrava ao relatar seu drama, mergulhei nas minhas memórias e me vi na Xuxa.
Sim, pois somente quem passa pelo
“abuso sexual na infância”, tem a exata medida do que ela passou. Vocês devem
estar se perguntando, mas você tem propriedade para falar deste assunto? Claro
que sim, pois também fui vítima. E também trago essas chagas abertas que aos
poucos vou tentando fechar.
Aqui não se trata de “troca-troca”
comum na infância, nas primeiras descobertas, mas sim de agressões propiciadas
por adultos bem, mas bem mais velho do que você que utiliza da sua fragilidade,
medo, insegurança para colocar toda a sua maldade em prática.
Quero relatar minha história para que
vocês me entendam.
Trabalhei aos doze anos como
empregado doméstico numa casa, na região do Planalto Paulista, zona sul de São
Paulo, onde fui molestado pelo dono da Casa, um senhor, que era advogado e que
não teve nenhum pudor em me mostrar a sua arma, caso eu falasse qualquer coisa.
Eu simples, carregador de sacolas de
feira de madames, depois da feira ia limpar a casa dessas pessoas, entre elas a
deste advogado.
Todavia, a ameaça do mesmo era desnecessária,
até porque pra quem eu iria contar?
Quem acreditaria em mim?
Como abrir esse assunto há 30 anos
atrás, onde os meios de comunicação e as leis não protegiam o menor?
Tampouco os pais, e no meu caso pior ainda,
pois nem mãe eu tive, eu e meus irmãos fomos criados por várias madrastas, que
só souberam maltratar-nos.
Meu pai era Deus no céu e mulher na
Terra, compreensível se levarmos em consideração que ele é um homem analfabeto
que fora abandonado por uma mulher que lhe deixou nada mais, nada menos que
sete filhos.
Outra sensação relatada por Xuxa, e
que é verídica aqueles que sofrem o abuso, é o misto de sentimento que aflora
em nós, que é de culpa, angustia e sensação de ter provocado tal atitude.
Outro fato apresentado por ela que
também e identifiquei foi à questão do cheiro. Nossa o cheiro é algo
impressionante, se você sente o cheiro do seu agressor gera em ti um misto de
medo e ódio.
Quantas outras crianças não estão
sendo violentadas neste exato momento? Ou quantas não passaram pelo abuso sexual
dentro da própria casa, ou por outras pessoas?
Os dados falam por si só, os
noticiários são constantes, mas o pior de tudo isso é saber que esses
malfeitores continuam a praticar tamanhas barbáries com as nossas crianças.
Por isso aqui vai um alerta aos pais,
procurem viver a vida dos filhos de vocês, seja na escola, ou nas diversas
atividades que ela possa freqüentar.
Ensine-as a ter confiança em vocês.
Para que se sentindo seguras possam relatar lhes atitudes estranhas provindas
de qualquer pessoa, que venham ferir a sua integridade física e emocional.
Hoje sou professor e vejo que muitos
pais são relapsos nesse quesito. Entregam as escolas e professores funções que
devem ser trabalhadas no seio familiar.
Uma criança bem instruída,
acompanhada, terá condições não só de apontar um desvio de comportamento
inadequado de um adulto, como também se será capaz de dizer não as drogas, as
bebidas e tantas outras coisas ruins que lhes são oferecidas diariamente.
Não basta ser pai, ou mãe, eu digo
que é preciso exercitar a maternidade e a paternidade com responsabilidade sob
pena de serem culpabilizados pelo fracasso e pelas dores emocionais e físicas
que seus filhos carregarão para toda uma vida.
Vivemos hoje numa sociedade, onde
muitos pais nem sequer sabem o nome do (s) professor (a), dos seus filhos.
Quando visitam a escola são os
primeiros a dizerem que não “agüentam” suas proles, abrindo mão daquilo que é
mais sublime, o dom de gerar vidas dadas por Deus.
Ou senão utilizam da escola como um
meio de “engorda”, ou seja, vivem de bolsa disso, bolsa daquilo.
Se a escola não for importante na
vida dos pais, nas dos filhos também não serão. E usando desse ambiente é que
os predadores usurpam e cometem as suas atrocidades com nossas crianças, uma
vez que jogada na escola, também é jogada na rua.
Não quero aqui generalizar, pois
sabemos que abusos sexuais também acontecem nos lares abastados.
Uma criança não protegida socialmente
é mais um marginal na rua, e mais prostituição, roubo e tudo mais.
Vejam como um “ato” desumano pode
desencadear várias conseqüências quando a família e a sociedade não se unem no
combate aos maus tratos as nossas crianças.
É preciso ter leis mais duras que
garantam que nenhuma criança seja explorada sexualmente, moralmente,
integralmente.
Criança é pra ser tratada com amor,
com carinho, com respeito, com doçura, pois assim estaremos construindo um
mundo bem melhor do que vivemos.
Denuncie os maus tratos, não permitam
que crianças trabalhem em carvoarias, lixões, ou qualquer outro tipo de serviço.
Vamos propiciar cultura, educação,
lazer para elas.
Vamos amá-las.




Flávio!
ResponderExcluirRealmente emocionante a sua história.
Te admiro pela coragem de se expor e tb por vc ter lutado por todos esses anos na busca da superação!
Parabéns pela coragem!