Meu amigo, e irmão André de Odé, concedeu-me licença para que eu postasse esse texto.
Ele se faz necessário para que entendamos a Antropologia Religiosa Africana e assim possamos aprender mais sobre as nossas ancestralidades.
Espero que gostem.
Fogueira de Aira.
Boa tarde leitores, nesta edição falaremos sobre um ritual muito difundido por todo território brasileiro e na maioria das vezes erroneamente praticada.
Vamos por partes: Existem duas teorias evidenciadas em itans que nos revelam os motivos da Fogueira de Aira, uma delas faz alusão ao episódio vivido por Osaala, quando este é aprisionado por engano por seu filho Songo, que pensava que Osaala era um ladrão de cavalos, Oyo então passa a viver um caos, pois as terras não são mais férteis, os úteros não geram mais filhos, os animais definham até a morte, e após a solução do equivoco, e Osaala ser libertado, depois de muitos anos sofridos, Songo pede para que seus súditos banhem Osaala e se vistam todos de branco em reverencia ao Grande Pai, que viera a Oyo apenas para visitar e prestigiar o filho Songo pelos feitos e conquistas. Após muitas súplicas de perdão do povo de Oyo, Osaala agora tratado como de direito, e Oyo retomando a fertilidade que lhe era peculiar anteriormente, pede para voltar para sua terra, Songo impedido de poder leva-lo até sua terra Ile Ife, pois precisava ainda cuidar de Oyo, pede para que Aira, seu fiel membro da corte acompanhe seu pai e durante o trajeto, este a partir daí, se traja do mais impecável branco e acompanha o Grande Pai até Ile Ifé. Aira, para não constranger e não zangar Osaala, abdica do consumo do tão saboroso dendê, sal e passa a consumir em seus pratos a banha de Ori, tudo com o intuito de agradar o Ancião. Osaala, ainda debilitado pelas consequências vividas em Oyo, sentia muito frio e se flagelava em pensamentos sobre a tortura que sofreu nas prisões de Oyo, com isso Aira, todas as noites da longa viagem, lhe ascendia uma fogueira e ficava dançando ao redor do fogo e cantando historias das vitórias do povo de Oyo, com isso aquecia o Grande Orisa Ancião e relembrava de sua terra natal.
A outra vertente deste ritual faz alusão também ao saudosismo de Aira vivido em Oyo. Songo encantado pelos tesouros e terras férteis de Koso, decide invadir a cidade e toma-la para sí, mesmo sabendo que ali era uma terra cujo rei era seu irmão mais velho Dada Ajaka, já anteriormente isolado por ter sido destronado por Songo de Oyo, nesta terra existia uma coroa encantada chamada Baayani (Baani) que era conhecida por ser mística e dar poderes a quem colocasse sobre a cabeça. Havia sido escolhida por Dada Ajaka pois escondia a vergonha do rei com tiras ornadas de búzios. Songo a desejou tanto que Oya, sua esposa, divindade dos raios e ventos, apavorou-se com a possibilidade da morte de seu amado nesta disputa. Com isso, Oya rouba Ade Baayani e a esconde na casa dos mortos, onde Iku fazia morada, pois alí era o único local onde Songo não ousaria entrar, contudo Songo astuto como era, pede para que Aira vá em seu lugar, e o mesmo obedecendo ao grande rei assim faz. Sabendo da ausência de vida e luz na casa dos mortos, Aira confecciona Agere (pote ritual com fogo dentro) e com ele sobre sua cabeça e paramentado como se fosse um ancestral, adentra a casa dos mortos, alí se deparando com um contraste de beleza, metais e pedras preciosas adornando as paredes e tudo que se podia ver com a luz de Agere e com a tristeza e o frio da dor e morte. Seguindo os pedidos que o rei lhe fizera, trouxe em sua cabeça, como era a tradição, Ade Baayani, pois esta coroa só poderia ser carregada sobre uma cabeça, e nunca nas mãos, e assim entregando a Songo. O rei feliz foi logo tirando Ade Baayani da cabeça de Aira e colocando em sua cabeça, e logo começou a sentir sua cabeça crescendo e apertando, pois ele havia esquecido do fato de que Ade Baayani era antes de mais nada, encantada e mágica, e alí estava a prova de que a coroa não aceitou a cabeça de Songo, que neste momento se arrepende de todas as crueldades que havia feito com seu irmão Dada Ajaka e volta a colocar a coroa na cabeça de Aira para que o mesmo entregue a seu irmão mais velho. Quando este chega em Koso trajando Ade Baayani em sua cabeça, o povo entende que ali estava presente um outro rei que Ade Baayani havia escolhido, e começa a cantar: “Oba Koso Aira e, a inon inon” (O fogo, o fogo, O rei de Koso é Aira..). Contudo Aira ainda seguindo os pedidos de seu rei Songo, entrega a coroa, tirando de sua cabeça a entregando novamente a Dada Ajaka, perpetuando assim a paz entre estes dois territórios. Quando Aira chega em Oyo, o mesmo ascende uma fogueira e ali em volta começa a cantar para Songo os feitos da viagem, o que ele vivera na casa dos mortos, cantava as vitórias que Songo havia conquistado, cantava também sobre a história de sua família, e das terras de Oyo, tudo para que o rei não ficasse triste.
Existem rituais a serem obedecidos no ritual da fogueira de Aira, onde certo tipo de madeira deve ser colocado no centro da mesma, acompanhado de alguns outros objetos. Oya sempre deve acompanhar Aira durante suas danças ao redor da fogueira, e logo após as honrarias da festa, deve-se louvar grandiosamente Osaala, pois o mesmo está sempre presente no ritual da fogueira para ouvir a doce voz de Aira cantando feitos de Oyo e Koso.
Fica claro nesta edição que apenas a Aira é consagrada a fogueira, e apenas em casas que pertençam a Aira, este ritual é bem visto pela comunidade candomblecista. O Agere apenas é carregado pela cabeça de Aira, pois este Orisa é portador do fogo sagrado que adentra a casa dos mortos, e este é o motivo do uso do banté (saia com tiras de tecido) por Aira, pois ao adentrar Ile Ibo Aku, Aira deveria estar trajando roupas que o assemelhassem a Eegun, o mesmo traje é usado por Songo, mas com outro motivo, Songo usa banté por ter ele mesmo sido Eegun e quando retorna da casa dos mortos, após se suicidar, nos braços de Oya, fica obrigado a usar este traje para sempre, assim como comer em tijelas de madeira, consideradas em Oyo, vasilhas para alimentar porcos, as mesmas onde são ofertadas oferendas a Eegun. Aira não possui interditos com o dendê, apenas não se alimenta do mesmo na presença de Osaala. Existem Três caminhos para Aira, todos usam branco, apenas um pode trazer em suas vestes a cor vermelha com branco.
Esta matéria é apenas uma dissertação sobre estudos realizados, já dizia nosso estimado Pierre Fatumbi Verger: “O candomblé existirá sempre por não pregar uma verdade absoluta”. Mas com paciência e foco, buscamos aprender mais e mais sobre nossos ancestrais, pois o maior erro de um candomblecista e a banalização de sua tradição.
André de Odé
Autorizado a publicação para a Revista Orixas.

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